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ontem
fui pro show do
meu irmão
q é poeta e tem
uma banda chamada os poetas elétricos
ele escreve
coisas assim
os fins são sempre ruins os meios
devaneios só me interessam os inícios e os vinicius de moraes nada mais
ontem
fui praquela calçada de novo
aquela da pole dance
mas noutro bar, o de dona sílvia,
que na verdade chama confeitaria atheneu, sem placa
dona sílvia tem uns oitenta anos é
magra como um sibiti arrasta os pés mas sempre sorri quando oferece mais uma
cerveja
quando me vê diz – meu filho, anda
tão sumido, nunca mais veio
venha, venha
dona sílvia tem um marido
um marido preguiçoso
o nome dele é adelman, ou algo
assim
seu adelman tá sempre sentado, a
camisa aberta no peito, o bigode esbranquiçado
e um palito de dentes no canto da
boca
ele só olha
e dona sílvia pra lá e pra cá
e seu adelman, ou algo assim,
sentado, cavoucando os dentes
quando dona sílvia tá lá p dentro,
resolvendo uma paçoca ou uma moela ou um queijo-do-reino (d. sílvia se orgulha
do queijo-do-reino q serve – é legítimo, ela diz, mais contente q qualquer
grand-master-chef de 4 costados), e a gente olha p seu adelman e ele olha lá p
dentro chateado se d. sílvia não chega logo porq aí, aí, meu bem, seu adelman
vai ter q levantar e ele mesmo buscar o q a gente pediu com os olhos
ontem d. sílvia tava sentada num
canto, longe
ela nem me viu
uma filha vem buscar
quando fica tarde
ela nem me disse, meu filho, anda
sumido, venha mais vezes
eu tenho ido pouco, porq não me
deixam mais fumar na calçada
e a filha de d. sílvia, a q fica no bar depois q d. sílvia vai p casa, é uma chata
o marido é até legal, o marido dessa
filha da d. sílvia
mas a filha de d. sílvia enche os
copos na hora q não é p encher os copos
e oferece mais-uma-cerveja sem a felicidade
de d. sílvia
q nunca enche os copos na hora
errada
ontem
eu tive lá
mas lá tava mais p confeitaria
atheneu do q p d. sílvia
porq a gente não diz q vai p
confeitaria
mas p d. sílvia, assim, quase com
orgulho
dona sílvia virou metonímia, ou
algo assim,
o q é bastante injusto com d.
sílvia q dispensa literariedades
só d. sílvia é justa com ela mesma
ontem
d. sílvia não me viu
nem eu corri p ela
quando vejo d. sílvia assim meio
jururu eu prefiro nem falar porq não quero pensar num mundo onde d. sílvia não
esteja mais
ontem
a mesa era tão grande
e eu não quis ter saudade
de você
talvez ainda dê tempo
d’eu viver num mundo sem você
mas ontem a mesa era tão grande e
tudo tão distante q eu preferi ficar mesmo perto do meu uísque (porq não gosto
mesmo de cerveja e porq não queria q a filha de d. sílvia tentasse desajeitada
encher meu copo na hora inexata)
ontem as horas tavam bem inexatas
eu tava todo inexato
e quando voltei p casa vomitei em
local inexato
depois eu limpo o vômito
depois eu limpo tudo
depois de ontem é hoje
M.I